A mulher de quarenta e seis anos estava aborrecida com o assédio moral que sofria em seu trabalho. O coordenador tinha graduação inferior e só lhe passava trabalhos imbecis. Para piorar, era rodeada de homens que emitiam opiniões machistas e contavam piadas idiotas.
Procurou o colega mais combatente que conhecia e lhe mostrou um dossiê de assédio moral contra o coordenador. Após a leitura, o colega decretou que ela não teria sucesso, mesma resposta do departamento de pessoal: “sem testemunhas e sem provas, nada a se fazer”.
A mulher assediada não suportava mais a situação e, mesmo arriscando um estigma em sua carreira, entrou em licença médica por transtorno de ansiedade. Quando voltou ao trabalho, ouviu a piada do coordenador: “a moda agora é licença por estresse”. Piada maior foi o amigo dele entrar em licença psiquiátrica. Ué, não são as mulheres que ficam nervosas por qualquer coisinha?
A mulher aspirante a escritora já escrevia crônicas em seu blog e decidiu transformar o assédio em livro. Entretanto, antes de começar a escrevê-lo, fez cursos de literatura. Durante quatro anos, estudou teoria, mudou de setor e abstraiu-se da história do assédio.
Quando completou cinquenta anos, desafiou-se a escrever o primeiro livro em dois meses, pois, por acaso, viu a chamada para um concurso de literatura. Foi desesperador escrever um número razoável de páginas em tão pouco tempo, contudo, lembrou-se de que havia escrito vários textos para as aulas de literatura e conseguiu costurá-los na história. O nome do livro é “Caligari sempre vem as sextas” e a protagonista é uma mulher na faixa dos quarenta anos que sente muita angústia ao chegar em casa do trabalho nas sextas-feiras, pois está solteira, todos seus amigos estão comprometidos e provavelmente ficará sozinha durante o fim de semana.
A escritora por acaso tomou gosto pela literatura e começou a escrever o segundo livro, “Meu nome não é Geni”. A protagonista é uma moça chamada Maria que foge do marido violento e muda de nome. O livro fala de machismo, de relacionamentos abusivos e de outros fatos de violência. Por acaso, a escritora estava em um relacionamento complicado quando escreveu o primeiro e o segundo livros.
O homem encontrava-se com ela e com várias mulheres, mas afirmava que escolheria apenas uma e que pararia de sair com as outras. A escritora entendeu o recado (“fique a minha disposição porque, a qualquer momento, você pode ser a escolhida”) e se inspirou para escrever o terceiro livro, “Um solteiro responsável”.
A protagonista é insegura, sofre com baixa estima e quase se casa com um golpista que tenta ter um filho com ela furando os preservativos. Ué, não são as mulheres que aplicam o “golpe da barriga”? Depois se envolve com um outro homem e mantém a esperança de ser a escolhida. Em quem será que se inspirou?
A escritora não tinha ideia para um quarto livro até que se envolveu com um homem da sua idade que se comportava como um adolescente. Ela descobriu que ele estava saindo com uma amiga ao mesmo tempo e, quando o confrontou, ouviu: “tu é meio doidinha, né?!”.
Hum, essa frase não lhe era estranha… A escritora por acaso recorreu ao seu caderno de anotações quando tinha vinte e poucos anos e rememorou as vezes em que foi chamada de doidinha porque não se submetia aos padrões sociais nem tolerava atitudes machistas.
A releitura de seus escritos da juventude originou o quarto livro “Jèrome”, cuja protagonista é uma jovem rebelde que tem dificuldade em se adaptar e que não conhece o seu pai (que dá nome ao livro). A protagonista sofre assédio moral no trabalho e se sai bem no final.
Adivinhem a inspiração sobre o assediador?
A escritora, agora por gosto e escrevendo o quinto livro, acha graça de tudo e não tem raiva nem rancor dos homens, porém está mais seletiva e atenta. Agradece aos que lhe inspiraram e conclui que, na visão de uma escritora, ser mulher na América Latina é transmutar homens vacilões em personagens!


GISELLE CARVALHO é graduada em Comunicação Social e mestre em Letras. Escreve crônicas com temas variados em seu blog Gigi das Candongas desde 2011. De 2019 a 2023 publicou quatro romances no formato E-book.

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